terça-feira, 7 de julho de 2026

CHUVA

 Sé derrubarem a
saia,
inda resta a
calçola.
Quem vai á 
praia,
tem que enfrentar
a marola.
Quem entra na
chuva,
tem que se
molhar.
Quem não usa
luva,
poderá se queimar.
A vida não tem
segredo,
é sempre assim,
É só seguir o
enredo,
lutar até o fim.
Quem segue a
regra,
não tem o que
temer.
Ao medo não sé
entrega,
irá sempre
vencer.

por Raimundo Sucupira

MENINA DA ALDEIA

 

Caro Amigo, eu me abalanço a lhes dizer e redizer
que, o passado é igual ou mais importante do que 
o presente, pois é no passado que estão as coisas 
mais importantes que já nos aconteceu, no presente
as coisas ainda não aconteceu, por tanto, o passado
é muito mais importante.
Cá pra nós, ninguém vai contar algo que ainda não
lhes aconteceu, isso não existe, o passado não, tem
em seu favor a verdade dos fatos, ou seja, o que já
lhes aconteceu.
Tempos atrás costumava vos contar as inúmeras e
belas histórias, com o aproximar das eleições não
vos contei mais essas histórias, falando só dessa, a
política.
Vi que já falei demasiadamente da política e dos
políticos, agora resolvi voltar a esse assunto, às
inúmeras histórias que tenho para vos contar, não
vou mais deixa-la para depois. A política que me 
perdoe, levando em consideração o que essa gente
tem feito nos últimos anos não vale apenas gastar
o nosso latim em falar dessa gente. 
Principalmente dessa direita fascista que só tem
feito mal à sociedade.
Por isso voltar-me ei às minhas histórias. só volto
a falar da política se o assunto for muito urgente e
não puder esperar, ai eu falarei, se não, deixarei o
assunto política para depois.
Em assim sendo, iremos à história, em uma das
minhas andanças pelos confins desse meu amado
sertão, fui fazer uma visita a uma pequena aldeia
que fica num lugar chamado cafundó, essa aldeia
fica bem distante da cidade.
Nessa aldeia as pessoas falam de uma maneira
engraçada, digamos, diferente, para não passar 
para os outros que estamos mangando daquelas
pessoas.
Mas que é a fala deles é engraçada isso é verdade,
em nenhum outro lugar eu vi alguém falar dessa
maneira, é muito engraçado, quem nunca ouviu é
difícil segurar o riso, só ouvindo para crer, mas é
a mais pura verdade.
Numa certa manhã de domingo como costumo
fazer, apanhei os apetrechos coloquei no carro e
coloquei o pé na estrada rumo à tal aldeia que é
muito distante da cidade, para chegar até lá leva
um certo tempo. Temos que percorrer várias
léguas, gastar alguns litros de gasolina devido a
longa distância, depois de muito andar, passei
por um riacho que ainda corria um filete d'agua,
eis que depois de atravessar o dito riacho não
demorou e logo cheguei a tão esperada 
comunidade, ou seja, na aldeia. Parei o carro
em frente a uma pequena casa que ficava perto
da estrada, ao descer do carro olhei para a dita
casa em meio ao terreiro vi uma pequena menina
as voltas com uma pequena boneca de sabuco de
milho, sei que em alguns lugares é sabugo, mas
aqui no sertão da Bahia é sabuco.
Fiquei olhando para aquela pequena menina tão
entretida com a sua boneca que nem notou a
minha chagada.
Como um bom observador, observei que a dita
menina era muito bonita, branca, cabelos claro,
amarelo da cor do sol, olhos da cor da amêndoas
vestido de chita vermelho um pouco gasto pelo
tempo, pés descalços.
Cá pra nós, naquele fim de mundo não precisa
usar alpercatas, isso só quando o padre vai lá
para celebrar as missas anual, ai todos vestem 
a melhor roupa que tem.
Ao ver que ela não tinha notado a minha 
chagada, lhes chamei oi garota linda! levantou
a cabeça meio tímida respondendo baixinho, oi!
continuei, como é o nome dessa aldeia! com a
cabeça baixa respondeu, cafundó de bento! sem
querer perder aquele momento fofo continuei, o
seu pai está em casa? respondeu, não! ele tá na
roça! Com um detalhe, conversando comigo, e
com a cabeça baixa, sem olhar para mim, devido
à timidez.
Continuei, e a sua mãe? respondeu, foi buscar
agua no riachim! já volta! o senho espera! que
ela vai chegar! querendo puxar assunto eu disse
a sua boneca é muito bonita! como é o nome 
dela? respondeu, é Candinha! hum! é bonito o
nome da sua boneca! a menina bonita tem mais
irmãos? respondeu, tem o Tota e o Miúdo, eles
tá cum o pai na roça! continuei, você e os seus
irmãos estão na escola? sim! retruquei, mas você
esta aqui brincando! não foi hoje para a escola? 
respondeu, não! hoje não teve! a professora não 
pode hoje! indaguei, por que ela não veio hoje?
respondeu, ela tá doente! retruquei, o que ela
tem? respondeu, espinhela caída! hum, o que
mais! há, a menina bonita já foi na cidade? tudo
para não parar a prosa, respondeu, só uma vez!
quando foi isso? no dia que eu fiquei doente e o
pai me levou pra ver o doutor! só essa vez? só!
você gostou da cidade? eu não! porque você não
gostou da cidade? tem muita gente! tem muito
baruio! hum! o que mais! o que mais a menina
bonita gosta de fazer além de ir à escola com os
seus irmãos? respondeu, eu gosto de brincar com
o Mindim! retruquei, quem é o Mindim? sorriu e
respondeu, é o cachorro da minha Vó! há!!! é um
cachorro! sim! hum, o que mais! eis que aparece
a sua mãe com um pote sobre a cabeça e tendo 
nas mão um pacote de ervas.
Surpresa a dita mulher ainda com o pote sobre
a cabeça saudou-me, dias! respondi, dias! a dia
cuja colocou o pote em cima da calçada e a
rodilha em cima da boca do pote voltando-se à
mim, vosmecê quer alguma coisa?  retruquei, a
senhora conhece seu zé que mora nessa aldeia?
respondeu, conheço sim senhor! ele é meu 
primo!, ele é filho da minha tia Arminda! irmã
da minha mãe! retruquei, eu gostaria de ter um
dedinho de prosa com ele! respondeu eu levo o
senhor lá na casa dele! hum! tá certo! primeiro
eu quero lhes fazer umas perguntas! faz tempo
que a senhora mora aqui? respondeu, desde que
nasci! nunca sai daqui não senhor! retruquei, a
senhora nunca teve vontade de ir para outro
lugar? respondeu sem pensar, tenho não senhor!
retruquei, porque? aqui é o melhor lugar que tem
no mundo senhor! daqui num saio  por nada 
desse mundo, só pro cemitério! então a 
senhora gosta muito daqui! gosto sim senhor!
retruquei, e quando alguém adoece? respondeu,
ai a gente vai na horta e pega as ervas e faz o
remédio e bebe! retruquei, e se a doença for 
grave? respondeu, ai a gente vai até a cidade e
procura o Doutor! hum, o que mais! a senhora
tem quantos filhos? indaguei só para confirmar
pois a menina já tinha dito, respondeu, 3 filhos!
o Antônio que a gente chama de Tota! o Durval
que a gente chama de Miúdo! e a Maria Rita que
a gente chama de Ritinha! são três! retruquei, a
senhora não quis mais? não senhor! criar muito
filho é muito custoso senhor! hum, olhei para o
relógio e vi que a hora já era alta, tinha que ter
com a figura principal.
o senhor Zé de Leôncio, que conversa engraçado
foi com esse intuito que fui até lá, indaguei a 
senhora pode me levar até a casa do seu Zé! ela
respondeu, agora mesmo senhor! retruquei, 
então vamos lá! entramos por um pequeno e
estreito carreiro.
Depois de andar por um bom trecho chegamos
até uma pequena porteira daquelas que para se
adentrar tem que puxar os paus do buraco, que
fica nos mourões.
tiramos os paus dos mourões e passamos, ao
longe ouvia o alarido dos cachorros, sentir que
a casa estava por perto, não demorou e lá estava
a dita casa.
Ao chegar na dita casa fomos recebido por 2
cachorros aos borbotões, um rajado e um preto,
o rajado era o mais valente, a senhora raiou 
com eles dizendo, sai pra lá Riachão! que era o
preto, este escanchou-se em meio ao terreiro e
o rajado continuou a acuar a gente, até aparecer
o seu Zé Leôncio para nos acudir, ai os valentes
se retiraram.
Ainda com uma banda da porta fechada, pois a 
dita porta era daquelas partida ao meio, a parte
de cima e a parte de baixo, você escolhe qual a
parte que vai abrir primeiro, nesse caso ele abriu
a parte de cima primeiro.
Só depois que abriu a parte de baixo para que
eu pudesse entrar, entramos e fomos sentar na
sala, eu sentei-me num velho estrado de peroba
num canto da sala.
Tirei a filmadora da mochila e preparei para a
tão sonhada entrevista, vos confesso que foi a
melhor e mais divertida entrevista que já fiz na
vida.
Estava tendo a oportunidade de entrevistar a
figura mais interessante dessas bandas, sem a
menor sombra de duvida essa foi a melhor que
já fiz nessas minhas andanças pelos confins do
sertão.
Sertão este donde nasci e que jamais haverei 
de sair, pois é aqui que quero viver até o meu
último suspiro, depois de mais de uma hora de
entrevista paramos para uma prosa divertida e
sem protocolos. Parte dessas histórias eu vos
conto na próxima crônica, vos garanto que 
tem histórias  do arco da velha, dentre elas a
do talão de cheque.
Essa é muito engraçada, naquele tempo quem
tinha talão de cheque era tido como rico, que
tinha dinheiro no banco.
Ele foi ao baneb antigo banco e abriu uma
conta pegando 3 talões de uma vez, começou
a soltar cheques a vontade, o gerente do 
banco precisou chama-lo ao banco para ter
uma conversa séria com ele dizendo, seu 
José! só pode passar cheques quando tem o
dinheiro na conta! e o senhor passou vários
cheques sem tem nada na conta! disse ele ao
gerente, uai seu gerente! eu pensei que não
precisava ter dinheiro na conta não! ainda 
tem mais para passar! não gastei nem a 
metade! tem mais umas folhas para passar e
o senhor vem mandando eu parrar? foi aquela
confusão o gerente teve que explicar melhor
que não era bem assim.
Ele olhou para mim e disse uai seu Remundo!
o danado do gerente queria tomar os talão de
mim! ai eu deu cum a mão no cangaço, num
gostei não uai! eu que não sou nem bobo nem
nada concordei é claro.
Era bonito escrever naqueles carreirinhas que
tem nas foias! fazer um cado de numero! não
dei ele não! quando foi um dia o cumpade tõe
de Catarina falou cumigo, cumpade! tem um
falatório na rua! tão falano que o cumpade é
má pagador! que o cumpade tá passando um
tá cheque sem fundo! quando o povo vai lá no
tá banco o gerente fala que o cumpade não 
tem nada lá não! tem até gente mangando do
cumpade! ai eu num aguentei! fui lá e queria
pegar na garganta do tá gerente! só não fiz
isso mode que, o amigo Gentil tava lá e disse
que o home tinha razão! que só podia passar
o cheque se tivesse botado dinheiro lá! ai eu
joguei tudo lá e fui embira! nunca mais eu
voltei no tá banco! prefiro guardar o dinheiro
no meu emborná! foi isso que ocorreu seu
Remundo! ai sem poder rir, tive que engolir
a seco tudo aquilo.
Ai veio o melhor, o chamado para tomar um
café, o senhor quer tomar café? eu disse sim!
ai ele foi até a cozinha que era coberta de
palha de licuri.
foi até o fogão a lenha colocando uma 
chocolateira d´agua no fogo, e o pó do café,
depois que ferveu ele pegou uma brasa e
jogou dentro da chocolateira, demorando um
pouco, depois pegou uma caneca e colocou o
café. 
vos confesso que foi o café mais saboroso que
já tomei na minha vida, não tinha nenhuma
borra, com a brasa a borra vai tudo para o
fundo da chocolateira.
Depois de tomar o café despedir daquela figura
fantástica que tinha acabado de entrevistar e 
que nos fez tão feliz com a sua maneira tão
simples de viver e ver as coisas nesse mundo
moderno.
De modo que, depois de ficar sem contar as
nossas histórias por um bom tempo por conta
das noticias da política, iremos voltar a ativa
sem interrupções, da para falar dos dois sem
que deixe de falar de um ou do outro, é só ter
o cuidado de separar um do outro. Paz e bem...

Raimundo Sucupira





 
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