terça-feira, 28 de julho de 2026
LEMBRANÇAS
Caro Amigo, eu me abalanço a lhes dizer e redizer
que, as lembranças que guardamos são coisas que
nos mantem preparados para enfrentar tudo que
nos acontece no mundo moderno, são elas que nos
faz, digamos, sofrer menos os impactos dessa que
nos acossa que é a modernidade.
Pois a modernidade é algo que vai nos lapidando o
tempo todo, comendo pelas beiradas, é uma coisa
que não podemos evitar, assim como o passar do
tempo.
É por essas e outras que este poeta, saudosista tem
aguentado firme essa tal melancolia que tanto tem
nos assombrado nesse mundo moderno.
vos confesso que passado mais de sessenta anos eu
ainda não me acostumei com certas coisas que tem
nos aparecido.
São coisas que são inevitáveis, que não podemos
evitar, pois não somos ainda senhores do tempo, o
tempo é uma das coisas cujo o humano não tem
poderes para controla-lo, o criador não lhes deu tal
poder.
Dia desse ao ligar o computador dei de cara com
uma cena engraçada, um cidadão parou o seu carro
diante da sua casa, entrou para dentro deixando o
dito carro em frente à casa. Isso aconteceu numa
rua da cidade de São Paulo, em um dos bairros, foi
lá na cidade grande. Não demorou muito e logo
apareceu um desavisado que ia para uma carreata e
parou o carro logo atrás do carro parado em frente
à dita casa.
A fila começou a ficar grande, quase dobra o
quarteirão, alguns motoristas ficaram impacientes,
começaram a buzinar, eis que de repente o cidadão
que tinha parado o carro em frente à sua casa saiu
pegou o carro batendo em retirada.
Todos ficaram sem entender nada, foi ai que um
deles descobriu que tinha parado no lugar errado
e que a fila da carreata era em outro lugar, foi
aquela choradeira. Ao ver aquela cena cômica não
pude deixar de voltar no tempo, mais precisamente
em 1979.
Em 1979 com apenas 17 anos já sonhando em ir
à cidade grande, pude realizar esse sonho partindo
para a cidade de São Paulo vindo a trabalhar num
restaurante. O dito restaurante chamava Buffet
Salviano, era de propriedade de um Português, a
sede do tal restaurante ficava na Avenida nossa
Senhora do Sabará.
No meu primeiro dia de trabalho fui
mandado para a filial do restaurante que ficava
numa rua do centro, na rua 15 de novembro, o
dito restaurante ficava no banco de Londres, um
banco estrangeiro.
Para ser sincero, faz tanto tempo que já não sei se
o dito banco ficava na rua 15 de novembro ou na
rua direita, que os amigos e amigas me corrija se
possível.
Pois bem, lá fui eu às seis da manhã, desci da
condução, num ponto que ficava no parque Dão
Pedro, onde o ônibus da CMTC parava desci ali
peguei a rua direita na esquina tinha
uma loja, na frente da dita loja tinha uma bela
vitrine.
Em frente à dita vitrine tinha um manequim, um
manequim feminino, uma bela moça, passei e
cumprimentei a dita moça, vi que a dita moça
não respondeu. Pensei comigo, será que ela não
me ouviu! no outro dia passei novamente às seis
da manhã lá estava a dita moça, porém com as
vestimentas diferente. Não me fiz de rogado, lhes
cumprimentei novamente, bom dia moça! nada!
ai fiquei muito sentido, pensei comigo, que moça
mal educada!
Lá no sertão da Bahia, em Paramirim não tem
disso não! as pessoas são educada! quando a gente
cumprimenta responde! e essa não me respondeu!
que coisa feia! fui para o restaurante aperreado e
inconformado.
Já no restaurante conversando com os colegas eu
contei o ocorrido, dizendo, naquela loja que fica
na esquina tem uma moça muito bonita! mas ela
é mal educada! Um dos colegas indagou-me, qual
moça? eu respondi, a que fica na frente da loja!
ele indagou-me, ela fica dentro da cabine? disse
sim! então você cumprimenta aquela moça? disse
sim! o colega tu cumprimentou um manequim não
uma moça seu boboca! foi aquela gozação, fiquei
vários dias sendo gozado pelos colegas.
Daquele dia por diante aprendi uma lição, antes
de fazer ou falar algo nós devemos medir as
consequências, jamais fazer as coisas no escuro,
ou seja, sem pensar.
Devemos pensar bem antes de se empolgar com
uma mulher bonita, fazendo uso de um velho
chavão que os antigos diziam( Nesse mundo
nem tudo que reluz é ouro) Às vezes nem tudo
que os olhos ver é verdade.
Cinquenta anos depois daquele dia, lembrando
do fato engraçado em que vivi fico a pensar, se
cada um de nós não errasse como a nossa vida
seria enfadonha. Por incrível que pareça são
os nossos erros que nos faz crescer, não só os
acertos, como diz o ditado, é vivendo que se
aprende.
Aquele rapaz com apenas dezessete anos que foi
em busca do seu sonho na cidade grande teve a
oportunidade de aprender muitas coisas, aprendi
que nem sempre aquilo que vemos é de verdade.
Que não devemos focar só no bonito, pois quem
aprecia o feio bonito lhes parece, trocando tudo
em miúdos, é bom pensar muito antes de fazer
ou falar algo.
Depois daquele dia nunca mais faço ou falo
algo antes de averiguar se devo ou não fazer, se
devo ou não falar, aprendi que às vezes o
silêncio é mais importante do que o maior dos
discursos.
Nunca gostei de falar muito, prefiro ouvir, isso
não significa que sou tímido, porém prudente, o
tempo nos ensinou que, tem certos preceitos que
não abro mão. O caráter, o valor da palavra, a
verdade, tudo isso são preceitos que aprendi na
infância com meus pais e que faço questão de
seguir ao pé da letra.
Aquele matuto que saiu de Paramirim sertão da
Bahia com apenas dezessete anos, depois de
muita peleja aprendeu o bastante para viver uma
vida regrada, dentro da Lei e da ordem, jamais
fora dela.
Sabemos que nem tudo nessa vida é perfeito, no
entanto, sempre buscamos a perfeição, o bom e
o melhor. Tudo isso não quer dizer que queremos
ser melhor que os outros, não, nada disso, o que
queremos é fazer as coisas direito, isso não quer
dizer que nós somos melhor que os outros nem
tão pouco pior.
Como filhos do mesmo Criador sabemos que
somos todos iguais fisicamente, no entanto, no
tocante ao pensamento cada um pensa diferente
uns dos outros.
É isso que faz do ser humano a maquina mais
perfeita do mundo, não tem outra igual, somos
os únicos que tem o poder de raciocinar, por
tanto, de separar o certo do errado, o bom do
ruim, o bem do mal, a paz da guerra, a vida da
morte, o amor do ódio, a verdade da mentira. É
isso que faz a diferença num momento em que
a sociedade precisa como nunca da afabilidade
e compreensão de cada um de nós. Que cada um
faça a sua criteriosa reflexão sobre esse assunto
para que ao final todos possam construir uma
sociedade próspera e justa para os nossos filhos
e netos, é o que todos sonhamos na nossa longa
e penosa caminhada.
Passado 50 anos daquele fato engraçado que nos
aconteceu em São Paulo, fico a pensar, o quanto
o tempo passa, aquele jovem cheio de sonhos, a
vontade de vencer na vida, tudo aquilo ficou pra
trás.
Aquela energia, garra, vontade de vencer, tudo
ficou para trás, a vaidade, essa foi a primeira a
ter o seu final, agora a luta é outra, é a luta para
manter-se vivo.
Há essas alturas o que vier é lucro, não temos
mais tantas ambições, não pense que eu sou um
pessimista sou apenas um realista que nunca
gostou de viver de ilusões. Como um sertanejo
arretado que sempre fui prefiro lidar com a
realidade, jamais com as suposições, se e para
fazer, vamos fazer logo, hoje, nunca deixar pra
depois.
É por essas e outras que decidir voltar para o
meu estimado sertão de onde jamais deveria
ter saído, pois foi aqui que nasci e aqui que eu
quero morrer.
Por que sulcar, porém, tão imenso oceano de
superstições ainda que os céus me houvessem
dado, jamais haveria de conquistar tudo aquilo
que sonhei.
No meio de todas essas loucuras, ergue-se um
sábio importuno proclama estas verdades, tão
somente para viver sabiamente o que ainda
lhes resta nessa vida. Percorrendo com grande
rapidez as diferentes frente de batalhas, não
nos esquecemos dos que, possuidores dos
costumes e das inclinações para a gula jamais
a contemplei.
Dir-se-ai que esperam desfrutar essa pompa
quando estiver no ataúde, de nada valeria a
vaidade que se tem, na verdade, o que vale
mesmo são as boas ações que fizermos nessa
nossa caminhada.
Não foi somente aos indivíduos que a natureza
distribuiu o feliz dom do amor próprio, cada
cidadão, cada nação recebe o seu quinhão da
parte do Criador.
Tudo no mundo é tão obscuro e variável que
impossível se torna conhecer seguramente o
que quer que seja, como fizeram notar os que
acreditam na modernidade.
Esses filósofos julgam conhecer uma coisa é
quase sempre à custa da vida, enfim, o
homem é feito de tal modo que nele causam
muito maior impressão as ficções do que a
realidade.
É por essas e outras que sempre preferir ter
os pés no chão, como cidadão, como escritor,
poeta, só deito ao papel o que a mim vem do
coração, jamais a invencionice, a ficção, tudo
pela verdade, nunca pela mentira.
De modo que, essa é a trajetória daquele que
sonhou com uma vida melhor e que não teve
a oportunidade de conquistar tudo aquilo que
sonhou, mas que ama tudo que tem, sem ter a
cobiça pelas coisas dos outros. Paz e bem......
Raimundo Sucupira
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