terça-feira, 22 de setembro de 2026
TOCO PRETO
Caro Amigo, eu me abalanço a lhes dizer e redizer
que, a memoria é uma das coisas mais importante
na vida de um ser humano, pouca coisa tem mais a
ver com a nossa vida.
Costumo dizer nas minhas falas, um homem ou
uma mulher que não tem uma história para contar,
um passado, equivale a uma folha seca a vagar ao
sabor do vento sem rumo ou direção.
Ao partir quase ninguém irá lembrar deste, a sua
caminhada teria sido toda ela em vão, ou seja, não
deixará nada para que seja lembrado.
É por pensar dessa maneira que abracei esse meu
projeto de contar as inúmeras histórias que já ouvi
nessa minha longa e penosa caminhada.
Lhes garanto que são muitas histórias que já vivi
nesses 60 e tantos anos.
Muitas engraçadas outras nem tanto, pois de vez
em quando acontece coisas tristes que nos deixa
marcados para sempre não pela alegria mas pela
tristeza, dor.
No entanto, todas delas tem a sua importância,
tem o seu significado, por conta disso abracei esse
meu projeto em contar essas histórias para que os
amigos e amigas saibam.
Voltando a vos contar as inúmeras histórias que já
ouvi nessas minhas andanças pelos confins desse
meu sertão, continuo a contar as que ouvi do nosso
entrevistado seu Zé de Leoncio. A figura fantástica
que morava na aldeia do Cafundó, essa comunidade
fica logo acima do povoado da Tabua, fica longe a
tal aldeia.
Para chegar até lá caminha se várias léguas numa
estrada que não é lá essas coisas, é buracos a dar
cum pau, porém com um pouco de paciência se
chega lá.
Depois de ter sido recebido pela Menina Ritinha a
filha da prima do seu Zé, depois pela sua Mãe fui
ter com o seu Zé o famoso do lugar por ter a fala
engraçada.
Ao chegar à dita casa juntamente com a sua prima
parei em frente ao terreiro por conta do ataque dos
dois cachorros que nos acuava sem parar, até que a
senhora conseguiu conter os valentões, ai pude ver
que tinha um puxadinho ao lado da casa. Ao ouvir
o alarido dos cachorros o dito cujo saiu à porta, que
era daquelas partida ao veio, se quiser se abre uma
só, a de cima ou a de baixo.
Ele abriu a de cima, ao nos ver tratou logo de abrir
a de baixo também, ai eu pude vê-lo, era um
mulato alto, furnido, cara estreita, foi logo dizendo
se achegue! ao ver que tinha algumas coisas no tal
puxadinho preferir ir para o tal puxadinho, respondi
aqui no puxadinho tá bom! dirigindo-me para o dito
lugar.
Seu Zé acompanhou-me logo em seguida, a mulher
entrou para a casa, nos cumprimentamos, ele num
gesto amigável estendeu-me a mão, no aperto de
mão pude sentir, se tratava de uma mão calejada, a
mão de quem trabalha muito. Só quem pega no
pesado sabe do que estou falando, a mão de quem
trabalha na roça, no macaco, para os que não sabe
o macaco é quem trabalha por dia, que trabalha por
empreita.
Essas pessoas não faz escolha, pego o que vem pela
frente, machado, enxada, foice, alavanca, não, nada
lhes assusta, o importante é ganhar o pão de cada
dia.
Dei uma olhada para as coisas que tinha no dito
puxadinho, tinha muita coisa, cangalha, arreios, ao
lado um arado, pendurada na forquilha duas velhas
bruacas, uma cabaça grande pendurada na outra
forquilha, mas o que mais chamou-me atenção foi
algo que há muito não tinha visto, o SURRÃO, para
os que não conhece o surrão é um saco de couro,
tinha visto um surrão quando eu era ainda Criança,
meu Avô tinha um.
Quando ele vinha para a feira ele trazia mangas e
laranja no surrão para mim, depois que o meu Avô
partiu nunca mais voltei a ver esse apetrecho, o tal
SURRÃO.
O meu avô morava no distrito de Canabravinha
onde tudo começou, ou seja, foi em Canabravinha
que começou a história da minha amada Paramirim.
Foi na Tenda que os bandeirantes pararam na ida
para o morro do fogo, ai começou a história do meu
torrão natal.
Na subida da Tenda começaram a encontrar o ouro
tão cobiçado pelos descobridores ali construíram a
Ermida em homenagem a nossa Senhora das Graças.
depois de ver aquela peça rara não pude deixar de
voltar no tempo, na minha saudosa infância, quanta
saudade pois já faz um bom tempo que essa ficou
para trás. Depois de contemplar o velho surrão que
estava ao lado voltei os olhares para seu Zé, vi que
o dito cujo estava as voltas com um pedaço de
fumo e um canivete para fazer o cigarro de palha.
Como não tinha presa esperei o dito cujo fechar o
seu cigarro, depois que fechou o cigarro acendeu e
deu uma longa baforada, ai eu comecei a fazer a
entrevista.
Lhes indaguei, seu Zé! qual a história o senhor vai
nos conter agora? lembrando que ele conversa
muito engraçado, nunca vi alguém conversar como
ele por essas bandas.
Depois de mais uma baforada olhou para mim com
um sorriso demorado, como sou um bom observador
observei que o dito cujo tinha uma dentaria boa, que
faltava dois ou três dentes na parte da frente, para a
minha surpresa a história veio a calhar, o assunto
era o mesmo.
Olhou para mim e disse, vassuncê gosta de um
causo não é mermo? respondi sim seu Zé! ouvir
um causo bom é bom de mais! ele olhou para mim
e disse vou conta o causo do toco preto! ai eu não
pude deixar de indagar, quem é o toco preto seu zé?
ele respondeu, é o jumento uai! pra mod que ele é
muito cheio de manha eu botei o nome nele de
toco preto! quando eu grito o danado vem comer
mi na mão! indaguei e a história? nem lhe conto
não! foi num dia que a minha fia mais nova ficou
cum a espinhela caída! ai eu fui busca a cumad
Antonha para fazer as oração! eu fui até o quntá!
pega o toco preto! o danado tava roeno jurema!
o danado tava intirtido roeno a jurema! ai eu fui
por detrás na ponta do pé pra mod o marvado
não correr! preparei a corda pra mod joga no
pescoço! ai o miserave oiô de banda e viu eu
cum a corda não mão! há! seu Remundo! nem
lhe conto! o mardito muchô a orea! oiô de banda
e sentô o coice neu! não esperava tamanha
tungada! fui pego cum as carça na mão! foi
direto na boca! quando dei por mim tava cum
a boca cheia de sangue a os dente no chão! ai
não teve jeito! a muié faz um inguento e butô
no lugar! fiquei quase uma semana sem cumê!
foi duro de mais! seu Remundo! eu gostava de
roê osso! roê piqui! num pude mais faze isso! o
buraco num deixa! ai eu fiquei danado! peguei
uma pêa e botei no pé do mardito! ficou um
cado sem trotá! sem correr atrais das jega! ele
cumeu marrado! a minha vingança foi grande!
fique sem os dente! mas ele também ficou sem
as jega! enquanto ele me contava a história eu
via a janela, batia uma vontade danada de rir,
mas não me atrevi a fazer isso, mantive a linha.
Era muito engraçado a maneira que ele falava,
não vi isso em nenhum outro lugar, era muito
engraçado.
Depois dessa história engraçada ele nos contou
mais outras que vos contarei na próxima vez,
as histórias são muito engraçada, é uma melhor
que a outra.
Olhei para o relógio e vi que a hora já estava
adiantada e tive que me despedir, com a
promessa de voltar num outro momento para
mais um dedinho de prosa.
Nos dias de sábado quando ele vinha à feira
fazia se filas para conversar com ele só
para ouvi-lo, era muito engraçado, ele ia muito
no mercado do amigo Luiz Barros, era uma
festa quando ele chegava.
O Luiz Barros ficava horas proseando com ele
só para ouvir ele conversar, eu ficava ao lado
ouvindo é claro. Ele era eleitor do vereador
Gentil Vieira, quando o Gentil Vieira chegava
ele ficava todo contente.
A prosa se estendia por horas e nós atentos com
tudo aquilo, com o passar dos anos as coisas já
não são mais as mesmas, os amigos já se foram
na sua maioria.
Quanta saudade daquele tempo, daqueles amigos.
quase todos já partiram, não tem mais as prosas
boa, tudo se acabou.
De modo que, quem não teve um passado bom
não tem uma boa história para contar tudo isso
é muito triste, um passado orgulhoso para que
se possa contar é bom demais sô. Paz e bem.......
Raimundo Sucupira
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