terça-feira, 11 de agosto de 2026
CAMADA DE PAU
Caro Amigo, eu me abalanço a lhes dizer e redizer
que, a história é uma das coisas mais importante
da vida de um homem e de uma mulher, pois essa
significa tudo que aconteceu em nossas vidas, isso
não tem preço.
É por pensar dessa maneira que faço de tudo para
preservar a minha história, a minha memoria, tudo
que já me aconteceu no passado.
É por essas e outras que abracei esse projeto de
contar as inúmeras historias que aconteceu nessas
bandas do meu sertão. Devido às bramuras que
vem acontecendo no mundo inteiro deixei de vos
contar essas histórias por um bom tempo, mas que
volto a lhes contar agora.
Dar para conciliar as duas coisas, por isso vou lhes
contar uma que me aconteceu nos tempos idos, lá
por volta dos anos 70 ainda na flor da idade, com
10 para 11 anos.
A época mais bela e feliz da minha vida, coisas
que só agora muitos anos passado é que damos a
divida atenção.
Vamos aos fatos, ou seja, a história, o que ocorreu
naquela época, tudo sem tirar nem por, tão somente
a verdade dos fatos.
Meu pai tomava conta de uma pequena fazenda da
minha tia que foi morar em São Paulo, ela era
esposa de seu Nonô um dentista que morava aqui
em Paramirim. Pois bem, vamos a história, ainda
criança não trabalhava o único trabalho que fazia
era levar a comida para meu pai na roça ao meio
dia.
Meu pai tinha vários trabalhadores que fazia roça
com ele, dentre eles tinha um o Iozinho um sujeito
que comia uma agua das boas, mas que era um
sujeito muito trabalhador, plantava roça grande e
muito bem cuidada. Ele morava numa casa perto
da lagoa em frente à dita fazenda que meu pai
tomava conta, eu costumava brincar com um dos
seus filhos o Chico que era da minha idade, eu ai
lá brincar com ele. Naquela época não tinha agua
encanada nas casas nem energia elétrica nas casas
as pessoas tinha que buscar agua no rio ou na
lagoa, a luz era na candeia.
pois bem, o pai do Chico mandou ele buscar agua
na lagoa e depois ir na venda de Salvador buscar
querosene para colocar na candeia para iluminar
a casa.
A dona Maria já tinha reclamado que a dita cuja
tinha acabado e precisava buscar na venda onde
tinha a caderneta.
Para os que não conhece a caderneta é uma conta
que só paga no final do mês, no interior ainda tem
a dita caderneta em certas vendas.
Como todo menino é atentado por uma boa
brincadeira, cheguei lá e chamei o Chico para
brincar e o Chico esqueceu de cumprir a tarefa
que seu pai lhes mandou fazer, jogava bolinhas
de gude ao terreiro na maior alegria, eis que de
repente chega o seu pai, ele parou em meio ao
terreiro e olhando para o Chico lhes indagou, a
tarefa que mandei você fazer você cumpriu? foi
buscar a agua na lagoa? foi buscar a querosene
na venda? o Chico respondeu não! porque você
não foi? respondeu esqueci! hum! Iozinho olhou
demoradamente para o Chico, depois de olhar
bem para o Chico ele lhes indagou novamente,
tú é homem Chico? o Chico respondeu, não! e o
que tú é Chico? o Chico respondeu, moleque! ai
a madeira cantou no lombo do Chico, tá! tá! tá!
tá! o cinto era daqueles de couro bem largo, o
Chico saiu com o coro quente.
O coitado do Chico desceu aos borbotões rumo
à lagoa sem olhar para trás eu fiquei meio sem
graça em meio ao terreiro com as bolinhas de
gude em mãos.
A camada de pau foi tão grande que o Chico foi
dormi no mato naquele dia, desse dia em diante
o Chico nunca mais deixou de cumprir as tarefas
para brincar.
Toda vez em que eu lhes chamava para brincar o
dito cujo falava depois que eu cumprir as tarefas
eu vou.
De vez em quando eu gozava dele e ele virava
uma fera, dizia é porque a surra não foi em tu
infeliz! era aquela gozação, o Chico era baixinho
atarracado, valente, corria atrás dos meninos a
xingar.
Depois de muitos anos trabalhando com o meu
pai o Iozinho foi embora para São Paulo nuca
mais voltou, passado mais de 50 anos ainda me
lembro dessa história, daquela gente, daqueles
amigos.
De vez em quando recolho-me num canto faço
uso das paginas da mente, revirando os
alfarrábios da mente e relembro de tudo aquilo
que aconteceu-me no passado, os amigos que
há muito não os vejo, bate uma saudade danada.
Travando uma longa e penosa peleja com essa
tal modernidade ainda não acostumei com essa
enorme perda.
A minha saudosa infância, tudo aquilo nos faz
tanta falta, só agora passado mais de 60 anos
vejo o quanto erámos felizes, que tudo aquilo
já não é mais possível, coisas que não voltam
mais. Precisava-se de tão pouco para ser feliz,
a simplicidade das coisas, mesmo assim se era
feliz, não existia essa tal melancolia, essa tal
correria, tudo era tranquilo, sem estresse, tudo
era calmo, tranquilo.
Agora nesses tempos modernos a coisa é bem
diferente, a correria, o estresse, já não se tem
mais tempo pra nada, tudo isso me é estranho,
não consigo acostumar-me com isso, não gosto
nada disso.
Como um bom saudosista prefiro aqueles
velhos e bons tempos, era bem melhor, não era
corrido como agora, tudo era calmo, tranquilo,
era só paz e amor, cada um respeitava o tempo
do outro.
Agora não, a cobrança é grande, fica todo mundo
de olho um no outro, qualquer vacilo a cobrança
é certeira, a critica não demora a chegar, isso nos
deixa com a pulga atrás da orelha, às vezes não
fazemos algo por medo das criticas, com medo
de não agradar os outros.
Tudo isso acaba por atrapalhar a nossa vida, o
que acaba em fracasso, não por sermos fracos,
mas por excesso de prudência, tudo para não ser
criticado.
Sem duvida tudo isso acaba por atrapalhar nossa
vida, depois das redes sociais isso ficou ainda
pior, qualquer coisa que você faz ou fala logo
vem a enxurrada de criticas. Não se pode errar,
tudo tem que ser muito bem calculado, tudo tem
que ser muito bem feito. Fazendo uso de um
velho chavão( se correr o bicho pega, se ficar o
bicho come) o fato é que, não se pode vacilar, a
coisa tem que ser muito bem feita, quem erra é
fulminado.
Tudo isso acaba por contaminar as pessoas, os
que queria fazer as coisas acaba por não fazer, o
medo das criticas não lhes deixa realizar certos
sonhos, o medo acaba por sobrepor aos sonhos.
Mas como sou teimoso, não desisto nunca, não
tenho medo das criticas, continuo a fazer o que
gosto que é contar histórias, mesmo sabendo o
risco que corro de receber criticas. Sei que tem
os que gostam e os que não gostam de ouvir as
histórias que contamos, no entanto, não vai ser
por conta de criticas que vou parar de fazer o
que gosto.
Por isso peço aos que porventura acham que é
demasiadamente o que faço, que tenha calma e
veja o lado bom das coisas, que ouvi uma boa
história de vez em quando nos trás um pouco
de alento a já tristonha e conturbada alma. Na
vida tudo tem que ser levado em consideração,
nada pode ser descartado, nem mesmo as
criticas, pois elas poderão nos ajudar a rever
certos conceitos, ou seja, mudar para melhor o
que fazemos.
É por essas e outras que abracei esse projeto
em contar essas histórias que nos aconteceu no
passado, tudo isso acaba por dar uma pequena
contribuição para com a sociedade moderna
que não conhece certas coisas. Nota-se que os
moços não conhece muitas coisas que para nós
no passado era comum, normal, mas que agora
é novidade.
Assim como as coisas que acontece agora, na
modernidade são para mim estranha, coisas que
não consigo me acostumar, para esses moços o
que aconteceu no passado também lhes é
estranho.
O que é positivo em todo isso é que um acaba
por ajudar o outro, o velho e o novo um ajuda
o outro e ao final tudo acaba bem, todos ficam
felizes.
Vale ressaltar que, infeliz daqueles que não
tem uma história para contar, esse equivale a
uma folha seca que vaga ao vento do sem rumo
ou direção. Por conta disso que sempre lutei
para preservar essas memorias, esses preceitos
que fizeram parte de nossas vidas lá atrás e que
jamais poderá ser esquecido. Faço questão de
vos dizer que, a minha memoria é um arquivo
vivo, tenho muito o que contar, são muitas as
histórias que haverei de vos contar logo adiante
no momento oportuno.
Enquanto isso, vão curtindo essa do meu amigo
Chico, o menino que por conta da brincadeira
esqueceu de cumprir a tarefa que o pai lhes
confiou, que isso sirva de lição aos moços, as
obrigações vem sempre em primeiro lugar, as
brincadeiras vem depois. é assim que as coisas
funcionam.
De modo que, depois daquele acontecimento eu
aprendi uma lição, jamais deixar para depois o
que temos que fazer agora, nunca levei um cinto
no lombo, no máximo uma Carraspana, sempre
fui um menino obediente. Paz e bem.......
Raimundo Sucupira
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