terça-feira, 18 de agosto de 2026
TREM DE RISCO
Caro Amigo, eu me abalanço a lhes dizer e redizer
que, contar uma história é bem melhor do que viver
na expectativa do que vai vir no presente, pois não
sabemos o que vai vir, a história não, já aconteceu,
nós já vivenciamos.
Como já vos contei antes, na crônica passada, dessa
vez vou lhes contar mais uma das inúmeras que nós
ouvimos na nossa ida à casa do seu Zé de Leoncio
na aldeia do Cafundó.
Trata-se de uma figura muito engraçada, ele fala de
uma maneira única, nunca vi alguém falar como ele
em Paramirim, é único, é muito engraçado ouvir ele
falar.
Para os que não se lembram da história que contei
na crônica passada eu contei a história do talão de
cheque que o seu Zé nos contou, dessa vez contarei
a da visagem.
Muito bem, vamos à história, contava-me ele, uai
seu Remundo! esse causo é cabeludo! medonho! o
caso é cabuloso por demais sô! conta logo seu Zé!
que história cabulosa e essa? pois é seu Remundo!
não sei se conto não! conta seu Zé! louco para que
o dito cujo contasse logo! pra minha tristeza pegou
uma binga, precisamente um boga, para os que não
conhece a boga é um isqueiro muito usado na roça
para acender o cigarro de palha ou o cachimbo para
pitar.
A boga é feito do chifre de boi, ou de cabra, corta se
o chifre coloca uma bucha de algodão dentro do
chifre soca bem socado, corta um pedaço de lima, e
um pedaço de pedra fígado de galinha, a pedra que
estou falando é uma pedra marrom muito parecida
com o fígado de galinha.
Faz uma tampinha com um pedaço de cabaça e o
amigo tem uma boga pronta para fazer fogo, tudo
isso sem precisar fazer uso do combustível, muito
menos energia.
Muito bem, só depois que pegou o fumo e a palha
na algibeira da calça de algodão riscado que vestia
e cortado o fumo e a palha de milho, feito o cigarro
acendido o dito cujo ele não voltou ao assunto, ou
seja, a história.
Depois de uma longa baforada, saindo uma fumaça
dos diabos, o dito cujo não falou nada, já atordoado
com aquele fumacê ele resolveu contar a história tão
esperada.
Colocando o cigarro num lado da boca começou, o
senhor num acredita! a coisa é medonha sô! foi na
noite de lua cheia! na quaresma! o azeite que a muiê
colocava da candeia tinha pifado! ai eu fui buscar o
tá azeite na venda na Tabua! fui no quintá! peguei a
mula baia que costumava montá! a danada comia no
munturo! fui lá! passei a corda no pescoço da mula
trazendo a danada pro terreiro! botei o arreio! o meu
emborná! passei a perna na danada e rumei pra dita
venda! há seu Remundo! nem te conto! não demorou
e foi uma ribuzana danada! logo que cruzei o riacho
a mula começou a rifugar! a danada queria por que
queria me jogar no chão! tive que partir pra destreza!
sapequei o pé no subaco da danada! a danada tinia o
dente! e eu em cima! seguro na corda feita de caruá!
essa não faia nunca! aguenta firme! num quebra! não
nega fogo! depois de muita labuta! a danada pegou o
rumo! ai eu pensei que a coisa tinha acabado! há seu
Remundo! nem ti conto! na vorta grande! perto da
pedra do sino! a coisa piorou! ficou cabulosa! o
animá oio pra frente! quando eu oiei também eu
vi uma coisa do outro mundo! bem no meio da dita
estrada uma livuzia! a dita cuja era redonda! não se
via perna! nem tão pouco cabeça! um trem do outro
mundo! pensei cum migo! é hoje que a égua corre
cum a sela! o cabuloso fungava de lá! e a mula
fungava de cá! e eu em cima da danada recorrendo
as oração! no lado da estrada tinha um mulundú! a
livuzia correu pra cima do tá mulundú! roncando
feito barrão inteiro! uma tribunaza que nunca tinha
visto! a essas artura a mula já tinha se acarmado um
pouco! mas ainda tava arisco! meti o pé no vazio
da mula! a danada arribou o cabo e pernas pra que
ti quero! só foi parar na frente da venda! ai eu tive
que contá o ocorrido pros amigos que tava na venda
queimando a guela! foi uma bramura dos diabo! foi
grande o alarido! o cumpade migué que tava lá disse
cumpade nois vamo junto! bateu a mão no colino
marté que tinha na cintura! o dito cujo tava amolado
feito navaia! nois vamo pegar o mardito! ele vai vê
cum quanto pau se faz uma cangaia! vai aprender a
respeita um cabra retado! eu disse pro cumpede! uai
cumpede! num precisa não! eu dô conta disso! uai!
num precisa o cumpade se apoquentá! num precisa
não! pequei o lata cum a querosene amarrei na sela
e passei a perna voltando sem demora, pois a Zifa
tava quase no breu! a carreira foi grande! quando
cheguei no dito lugar! esperando dá de carta com a
livuzia novamente! qual nada! nem sombra na dita
cuja! nem o animá se deu conta! foi uma toada só!
passamo ligeiro! sem oia pra trás! uma toada só! o
riacho ficou logo pra trás! não demorô e escanchei
no terreiro! pequei o emborná cum a lata de
querosene entrando aos borbotões para vê se tava
tudo bem! a Zifa ficou agastada cum aquela gastura
da minha parte indagando! o que tu tem home! tu
viu um trem do outro mundo! hum! o pior é que vi
mermo! ai seu Remundo! catei a Zifa levando pro
canto escondido dos menino e contei o ocorrido! a
Zifa foi direto pro oratório fazer as oração! dizendo
pra mim pode de ser a tá mula sem cabeça! nois
tamo na semana santa home! foi ela! a dita cuja! o
aviso foi dado! não se deve sai de casa nessa época!
tem que respeitá! pelo sim pelo não! não andei mais
de noite! só durante o dia! até que acabou o tempo
da quaresma! desse dia pra cá nunca mais andei a
noite no tempo da quaresma seu Remundo! aprendi
essa lição! essa foi a história do trem que eu e a
mula topamos de frente! ai vendo que a história já
tinha findado, percebendo que ele tinha falado de
dona Zifa lhes indaguei onde está a dona Zifa seu
Zé? foi logo dizendo há seu Remundo! nem lhe
digo! a Zifa viajou! uma viagem demorada! ela foi
pro Paraná! tem um fio nosso o do meio! que foi
morá lá! bem longe de nois! lá casou e já tem uns
fios! ai a Zifa como ele não quis mais vortá a zifa
foi lá vê eles! ai eu tô por aqui se virano! não posso
sai pra nada, a criação tem que ser cuidada! não é
bom tudo mundo sai de uma vez não é mermo? eu
tive que concordar.
Foi ai que lembrei-me do café que ele fez da outra
vez que vim aqui, a dona Zifa já tinha viajado, ele
estava só na ocasião.
Com o material farto em mãos parei de filmar, não
precisava de mais nada, já tinha o material que eu
precisava. Dessa vez não esperei ele me oferecer o
café pois sabia que ele estava só em casa, eu não
queria lhes dar esse trabalho. ao ver que a hora era
alta despedi-me dele prometendo voltar depois pra
mais um dedinho de prosa e ouvir mais uma bela
história. Dado que, essa foi mais uma das histórias
que ele nos contou e que estou a lhes contar agora,
lhes prometo contar mais algumas que ainda tem e
que vos contarei na próxima vez. Paz e bem...........
Raimundo Sucupira
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deu-se em conseqüência da colonização e exploração das minas do rio das Contas, no município de Rio de Contas, quando portugueses e brasileiros, seguindo pelas margens do Rio Brumado, cujas nascentes se controvertem no pico das Almas com as do rio Paramirim, lograram acesso às minas de ouro do Morro de Fogo nas proximidades do Vale do Paramirim, onde se encontra localizada hoje a cidade deste nome.
Sua área total é de 1.116 quilometro quadrados e a população de 2.00 é de 18.921 (dezoito mil novecentos e vinte e um habitantes). Seu clima é quente, na época das trovoadas (Verão), e agradável no resto das estações. Sua vegetação é predominante de Caatinga. A altitude da sede municipal é de 654 metros acima do nível do mar. Seus principais recursos econômicos são a agricultura, pequenas indústrias, a silvicultura, que, depois das atividades domésticas é o ramo ocupacional mais numeroso.
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