terça-feira, 20 de outubro de 2026

LABUTA AO SOL

 

Caro Amigo, eu me abalanço a lhes dizer e redizer
que, quanto mais se fica velho mais as lembranças
vão ficando mais frescas, pelo menos comigo essa
verdade fica clara a cada ano que passa e o janeiro
vai se assentando sobre os ombros, para não dizer
pesado.
Pois vai se lhes pra mais de 60 anos de caminhada,
de uma longa e penosa labuta para manter se de pé,
para não dizer remando contra a maré, pois são 
muitas as pedras no caminho que temos que tirar e
prosseguir.
Em casa como costumo fazer, pois já não saio de
casa com tanta frequência como fazia tempos atrás,
prefiro ficar em casa mais precisamente ao quintal
em meio às minhas plantas, essas companheiras que
estão sempre a minha espera.
Cá pra nós, como um sertanejo, ambientalista não 
poderia ter melhor companhia que as plantas e os
pássaros que não sai do quintal por conta das frutas
que lhes dou.
Dia desse ao molhar as minhas plantas num calor
daqueles de fazer inveja, pois aqui em Paramirim,
Bahia, Brasil, sertão, pois a minha amada terra é
situada bem no meio do sertão o melhor e mais
belo lugar do mundo para se viver, porém, o sol e 
o calor é de rachar.
Se o cabra facilitar frita a moleira, sentindo calor
sentei-me sobre a sombra de um pé de goiabeira e
comecei a folhar os alfarrábios da mente, parei em
uma passagem bem distante, lá pelos idos de 1965,
nessa época eu tinha 6 para 7 anos. Meu pai tinha
um estimado amigo que morava num lugar que era
chamado de lagoa de fora, o dito lugar não era tão
longe, não para quem mora no sertão, caminha-se
por léguas tudo sem reclamar.
Nos domingos o meu pai costumava ir visitar esse
seu estimado amigo, o dito cujo atendia pela 
alcunha de Francino, mulato alto, furnido tinha por
volta dos 40 anos, bom de prosa, sorriso fácil, nada
lhes tirava a calma com facilidade, estava sempre a
sorri.
Num certo domingo fazia um calor dos diabos, sol
de rachar lá fomos nós rumo à lagoa de fora, casa
do Francino, ao chegarmos perto do rancho de 
enchimento onde o dito cujo morava avistamos ele
em meio ao sol de rachar as voltas com sua velha e
gasta enxada.
O dito cujo estava a capinar o catador que ele tinha 
plantado no pó, quando se planta no pó se colhe
primeiro, mas também se pega na enxada mais cedo
pois a babuje nasce com as primeiras chuvas, era o
que ele estava fazendo.
Meu pai gritou França! ele respondeu, vamos chagar!
as panelas já tá no fogo! não demora e o capado vai
ficar pronto! para os que não conhece o capado é um
frango especial. O dito cujo é criado diferentemente
dos demais, ele fica bem maior do que os outros, em
nada se compara.
Voltamos ao assunto, chegamos ao terreiro em meio 
ao terreiro tinha um velho e longo tronco de madeira
com dois buracos, um maior e outro menor, o famoso
pilão.
encostado na sombra do pé de moreira as duas mãos
do pilão, uma mais grossa e a outra mais fina, cada
uma tinha a sua boca, uma para o buraco maior e a
outra para o buraco menor, não tinha erro, tudo bem
organizado.
A menor era para pilar o café torrado, ficava mais 
fino, a segunda a mais grossa era para pilar o milho
para tirar o fubá para fazer o cuscuz, pilar o arroz e
a carne seca para fazer a paçoca, cada uma tinha sua
serventia.
Os dois entraram para dentro da casa e eu fiquei com
o cachorro malhado que ele criava, um cachorro bem
cuidado, um caçador de primeira linha quando saia a
caça não voltava sem uma caça. O malhado gostava
muito de mim, toda vez que eu chegava era um festa
ao me ver, a reciproca era verdadeira, eu também lhes
estimava muito.
Amizade verdadeira entre menino e animal, coisa de
verdade, sem nenhum interesse, coisa genuína, raro e
que não se vê mais nos dias de hoje, pois as crianças
preferem o celular do que a amizade de um cachorro
de estimação.
Só parei a brincadeira com o malhado quando o seu
Francino saiu na porta com uma cuia cheira de umbu
para mim, ai eu fui correndo rumo à cuia com aquela
delicia. De posse da cuia de umbu sentei-me no dito
pilão e comecei a chupar os umbus, uma delicia, que
doçura, umbus inchados ao morder estralavam entre
os dentes.
Enquanto isso os dois na cozinha as voltas com o
capado para o almoço do meio dia, eu nos umbus, o
tempo que não passava, o meio dia que demorava, o
capado, o almoço que não saia, afinal, pressa pra que,
tudo no seu tempo.
Ao meio dia chamaram-me para o almoço, o prato de
barro, feijão catador verde, arroz pilado no pilão, por
cima cortado de maxixe, generosos pedaços do capado
ensopado.
Não me fiz de rogado, peguei a colher e entre uma
colher e outra uma mordida num pedaço do capado, o
dito cujo estava uma delicia, nem mesmo me importei
com a pimenta que se fazia presente, o fato é que, não
sobrou nada.
Em baixo da mesa de peroba o malhado se deleitava 
com os ossos do capado, tudo só para ele, que coisa
maravilhosa, o tutano daqueles ossos, tudo só para o
malhado.
Ao longe se ouvia o estralar dos ossos passando pelos
dentes afiados do malhado, depois da comilança veio
o merecido descanso na rede pendurada sobre o galho
do pé de moreira no terreiro.
Antes o seu Francino foi até um embornal que ficava
pendurado numa forquilha num puxadinho ao lado da
casa pegando um batido, o batido era comprido, pois
tem batidos redondo também, o que ele pegou era um
comprido.
O batido era daquele bem branquinho, logo em seguida
partiu o batido ao meio, dando-me um pedaço, o batido
era doce, muito doce, uma delicia que qualquer um tem
vontade de comer. Depois que comi o generoso pedaço
de batido fui até a casa rumo ao pote que tinha num dos
cantos da sala, peguei uma caneca e enfiei no pote e
bebi quase a caneca toda.
Coloquei a caneca no pequeno gancho que ficava ao
lado do pote e voltei para a rede, de lá só levantei com 
o chamado do meu pai para ir se despedir do seu 
Francino, o sol já estava pelo meio da tarde, o calor já
estava um pouco ameno.
Meu pai pegou o seu embornal com os umbus que seu
Francino mandou para a minha mãe, a mim ele delegou
a uma tarefa bem mais dura, uma pequena cesta com os
ovos.
Antes seu Francino colocou malva rasteira no fundo da
cesta para que os ovos não viesse a quebrar, de posse da
tal cesta com o maior cuidado é claro, pois se um só ovo
quebrasse a madeira cantava no lombo, deitamos o pé na
estrada.
Depois de uma longa caminhada finalmente chegamos
em casa, minha mãe já nos aguardava ansiosa por conta
dos tais ovos, os ovos era para fazer brevidades, um dos
mais deliciosos bolos que já comi. A minha mãe fazia 
uma brevidade de dar água na boca, depois que a minha
mãe se foi nunca mais eu comi uma brevidade como as
que ela fazia.
A aventura não terminou por ai, ainda tive que cumprir
mais uma tarefa, ir até a lagoa buscar água para molhar
os pés de coqueiros que tinha no fundo da casa, eram
quatro pés. Eu buscava a água numa cabaça grande que
meu pai tinha, a danada cabia água pra caramba, levava
duas cabaças em cada pé de coqueiro, tinha que dar oito
viagem à lagoa.
Só depois a tarefa estava cumprida, poderia ir brincar
com os colegas, meio quebrado mas ainda tinha alguma
energia para brincar, as brincadeiras varava noite a 
dentro, assim que o sol desaparecia o breu, pois não se
tinha luz elétrica. ai todos se recolhiam cada um para a
sua casa, brincadeiras só no outro dia, ai começava tudo
de novo, que saudade da minha saudosa infância, coisa
que não volta mais.
De modo que, essa foi só mais uma das histórias que eu
tinha para vos contar, vos prometo que numa outra hora
vos contarei mais algumas, até a próxima meus amigos e
amigas. Paz e bem.....

Raimundo Sucupira




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